A economia mundial beneficiou na última década de um crescimento robusto. Entre 2009 e 2018 cresceu 30,2% (dados do Banco Mundial) ou seja, a uma taxa de crescimento média anual de 2,98%. Este crescimento foi acompanhado por um crescimento robusto do emprego. A taxa de desemprego a nível mundial decresceu de 5,6% da população ativa em 2009 para 4,9 em 2018 (dados do Banco Mundial).

Esta conjuntura de crescimento económico e baixa taxa de desemprego tem levado, em Portugal, a um aumento da escassez de colaboradores, em especial das pessoas mais qualificadas, sendo um problema transversal a todas as regiões e à generalidade dos setores da economia portuguesa, contrastando com a situação que se verificava durante a crise.

Na edição de 2019 do Global CEO Survey, elaborado pela PwC, 79% dos CEO portugueses mostraram-se preocupados com a disponibilidade de competências essenciais e 71% consideraram ser mais difícil recrutar talentos no âmbito das suas indústrias, num contexto em que 60% pretendem aumentar a força de trabalho. Como consequência, 52% dos CEO consideraram que esta conjuntura está a impossibilitar a capacidade de inovação da organização, 48% indicaram que os custos com trabalhadores estão a aumentar e 44% apontaram que não tinham capacidade para responder a oportunidades disponíveis no mercado. Entre os inquiridos, 50% indicaram que a falta de qualificações representa um dos maiores entraves à contratação de novos colaboradores.

No CEO Survey 2019 da Stanton Chase Portugal foram obtidos resultados semelhantes. De acordo com este inquérito as maiores dificuldades sentidas na gestão dos colaboradores foram o recrutamento do talento adequado (56%) e a motivação e compromisso das pessoas (36%).

Além destas dinâmicas, o progresso tecnológico, os efeitos da globalização e o crescimento do setor dos serviços estão a alterar profundamente a vida laboral. Já foram referidas aqui algumas implicações da automatização e da Inteligência Artificial (IA) no emprego. A força de trabalho tem de enfrentar um ritmo crescente de mudança, quer pela aquisição de novas competências, pela adaptação a novos modelos de negócio ou mesmo pelo ajuste às mudanças nas preferências dos consumidores.

O relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT) de 2019 Changing Business and Opportunities for Employer and Business Organizations aponta 5 tendências globais que estão a determinar a forma como as empresas operam no mundo:

  • Inovação tecnológica;
  • Integração económica global;
  • Mudanças demográficas e geracionais;
  • Sustentabilidade e alterações climáticas;
  • Falta de mão-de-obra qualificada.

Os impactos destas 5 tendências globais amplificam a necessidade das empresas e seus responsáveis não só acompanharem estas tendências como antecipar cenários futuros (ver aqui).

Com a OCDE a estimar que 65% das crianças de hoje irão desempenhar trabalhos que ainda não foram inventados, é clara a necessidade de uma força de trabalho flexível e altamente adaptável. Estudos como o The Future of Talent: Opportunities Unlimited, elaborado pela Chartered Accountants Australia – New Zealand, indicam que as empresas já reconhecem este facto, com a adaptabilidade e agilidade a serem consideradas as competências mais importantes mas mais difíceis para as empresas atraírem e reterem.

Segundo o mesmo relatório, as empresas poderão potenciar estas competências através de novas formas de pensar o trabalho, libertando-se das ideias tradicionais e preparando as práticas e o talento que serão necessários no futuro. As empresas estão a responder oferecendo formação on-the-job, mentoria e coaching aos seus trabalhadores como forma de desenvolver as competências de que precisam. Apontam também a implementação de horários mais flexíveis e a atualização da tecnologia como principais mudanças que sentem ser necessárias realizar.

O Documento de Reflexão sobre a Dimensão Social da Europa, elaborado pela Comissão Europeia, refere que até 2025 os padrões de trabalho e de carreiras serão mais variados do que atualmente. O recurso ao trabalho à distância ou ao trabalho móvel será mais fácil e mais comum, refletindo assim a tendência para a flexibilidade dos trabalhadores num mercado de trabalho mais diversificado.

O trabalho centrar-se-á cada vez mais nos resultados e não no tempo de presença física num determinado local, oferecendo mais oportunidades às pessoas para trabalharem como independentes e combinarem vários trabalhos ao mesmo tempo. Devido ao ritmo da digitalização e das mudanças económicas, alguns dos atuais empregos tornar-se-ão obsoletos e as competências necessárias para os mesmos ficarão desatualizadas. Alguns estudos sugerem que metade das atuais atividades laborais poderá ser automatizada até 2055.

Existem vários exemplos de empresas que têm implementado reduções nas horas de trabalho, como a Microsoft no Japão que limitou a semana de trabalho a 4 dias, resultando num aumento da satisfação dos seus colaboradores e numa melhoria da sua produtividade em quase 40%.

O Global Skills Index de 2019, elaborado pela empresa de recrutamento Hays, aponta duas pressões que têm sido particularmente importantes e com impactos opostos no mercado de trabalho a nível mundial:

  • A tendência de agravamento do desajuste de talentos na generalidade dos mercados de trabalho;
  • A diminuição dos salários pagos a trabalhadores altamente qualificados relativamente ao aumento dos salários dos trabalhadores menos qualificados correspondendo, apesar da queda das taxas de desemprego, a uma estagnação dos salários a nível global.

O relatório aponta como causas a concentração geográfica das empresas, o outsourcing e o aumento da automação nas empresas, que estão a afetar negativamente os trabalhos de qualificação intermédia, criando uma fratura no mercado de trabalho.

Segundo o relatório estão também a aumentar as diferenças entre as competências dos colaboradores e as procuradas pelos empregadores, medidas pelo indicador de desajuste de competências que aumentou em 16 dos 34 países analisados. Aponta como condições para criação de oportunidades para o sucesso o acesso a trabalhadores qualificados e o desenvolvimento de novos talentos.

Estas dinâmicas são também consideradas nos objetivos de políticas para o próximo quadro comunitário de apoio. Segundo as linhas gerais de prioridades pós 2020, particularmente nos domínios/objetivos transversais II – Qualificação, Formação e Emprego é prioridade “assegurar a disponibilidade de recursos humanos com as qualificações necessárias ao processo de desenvolvimento e transformação económica e social nacional, assegurando a sustentabilidade do emprego”.

Para responder ao aumento da escassez de colaboradores e a um desajuste nas competências, a formação assume um papel fundamental, dotando-os de novas competências e preparando-os para o futuro.

Cabe às empresas aproveitar as oportunidades de formação para construir uma força de trabalho capaz de navegar neste contexto de transformações profundas. É de extrema importância a preparação dos colaboradores e a adaptação da formação às suas necessidades e às exigências da organização, suportando-os na transição tecnológica e contribuindo para um aumento da produtividade e competitividade da organização.

E na sua empresa, os colaboradores possuem as competências adequadas? Já identificou as competências que a sua empresa necessitará de desenvolver no futuro?