O maior acordo comercial do mundo, designado por Parceria Económica Abrangente Regional (RCEP), foi assinado no passado dia 15 de novembro por quinze países da Ásia e do Pacífico. Este acordo, fomentado pela China, irá conduzir à criação de uma zona de comércio livre na região, sendo considerado o maior em termos de Produto Interno Bruto (PIB).

Os signatários do acordo, dez economias do sudeste asiático (Indonésia, Tailândia, Singapura, Malásia, Filipinas, Vietname, Birmânia, Camboja, Laos e Brunei) e ainda China, Japão, Coreia do Sul, Nova Zelândia e Austrália, comprometem-se a liberalizar o comércio com os seus parceiros, que no seu conjunto representam 30% do PIB mundial.

Estas economias têm vindo a assistir a um forte desenvolvimento económico e a um aumento da competitividade das suas empresas nos últimos anos. Recorrendo a dados do Banco Mundial, a média das taxas de crescimento do PIB a preços constantes das economias agora incluídas no acordo RCEP superaram em larga medida as taxas de crescimento da Zona Euro e de Portugal nos últimos 20 anos (Figura 1).

Figura 1: Taxas de crescimento do PIB a preços constantes

Taxas de crescimento do PIB a preços constantes
Fonte: dados do Banco Mundial

 

O acordo RCEP tem por objetivo eliminar uma larga variedade de tarifas alfandegárias dentro de 20 anos. Inclui também a proteção de propriedade intelectual, telecomunicações, serviços financeiros, comércio eletrónico, entre outros serviços. Irão ser revistas as novas denominações de origem, que definem o local onde um bem foi produzido, para que um produto seja tratado de igual forma dentro das nações signatárias.

Estas alterações vão criar incentivos às empresas daqueles países para procurarem fornecedores dentro da região, encurtando as suas cadeias de abastecimento, diminuindo custos e fomentando a competitividade a nível global.

Para as empresas europeias, principalmente de países como Portugal, se já existiam dificuldades em competir com as empresas do sudeste asiático, com este novo acordo as condições poderão tornar-se ainda mais difíceis. Os produtos oriundos daquela região, com a diminuição de custos e barreiras à entrada, tornar-se-ão ainda mais competitivos.

Recorde-se que um dos principais fatores que levou a indústria portuguesa a atravessar um dos seus piores momentos no final da década de noventa e início do século XXI, com o fecho de fábricas e rotura do tecido empresarial (são exemplos a indústria têxtil e o calçado), foi a adesão da China à Organização Mundial do Comércio (OMC). A China passou a poder exportar os seus produtos com custos muito reduzidos, nomeadamente para a Europa, tendo impacto significativo na economia e nas empresas portuguesas.

Com este novo acordo poderemos vir a assistir a uma tendência semelhante no futuro. As PME portuguesas, em especial as que têm reduzida intensidade de capital e fraca produtividade, terão maior dificuldade em competir no mercado internacional, onde as empresas do sudeste asiático poderão colocar produtos a preços mais competitivos.

Apesar dos modelos económicos mostrarem que no longo prazo as empresas poderão beneficiar da abertura das economias e do aumento do processo de globalização, as PME portuguesas possuem níveis de capital humano e desenvolvimento tecnológico baixos comparado com as empresas de outras economias mais avançadas. Para aproveitarem os benefícios necessitam de reestruturar-se e reafectar os fatores produtivos.

O que é que isto significa? Tal como no processo de reestruturação que ocorreu no início do séc. XXI, as empresas terão de transferir recursos rapidamente, diminuindo a utilização de recursos pouco eficientes, e combinar recursos e capacidades para obter vantagens competitivas face a uma concorrência cada vez mais feroz.

Os empresários portugueses já mostraram a capacidade de tomar as medidas necessárias para enfrentar as adversidades. A capacidade de adaptação, a inovação nos produtos e processos de trabalho conduziram ao reafirmar de setores como o têxtil e o calçado nos últimos anos.

É necessário estar atento ao ambiente externo, reconhecer os fatores que terão maior impacto no negócio e agir para que se continuem a criar ofertas que criam valor para os clientes. Só assim se pode minimizar o impacto do acordo RCEP e melhorar a competitividade das empresas portuguesas.

acordo RCEP